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Nuno Santos fala da sua saída da SIC

(...)
Mudemos de assunto: estava infeliz na SIC?
Não, essa foi uma das razões pela qual a minha decisão foi tão difícil de tomar. Os três anos e três meses da minha vida na SIC foram tremendos. Mais difíceis do que eu esperava, por razões de conjuntura externa e interna. Queria ter feito mais na SIC. Acho que devemos dividir em três fases esse percurso: em 2008, quando eu fui para lá, e tive a responsabilidade dos conteúdos, a SIC recuperou o segundo lugar das audiências, de uma forma muito folgada até. Portanto, inverteu uma tendência de queda que se vinha verificando. Depois, no final do terceiro trimestre de 2008, abate-se a grave crise financeira. E a SIC fez uma coisa terrível para quem trabalha na área dos conteúdos, mas que tinha de ser feita: foi a primeira empresa na área da comunicação social que emagreceu a sua estrutura. Alienou empresas, centrou-se no essencial da sua actividade. Essa fase seguinte foi terrível e só quem está dentro do convento é que sabe o que lá vai dentro.
Pensou em ir-se embora?
Não. Não sou homem de desistir, mas é óbvio que fui, publicamente, a pessoa que mais pagou por essa reestruturação. Mas graças a esse esforço liderado pelo Luís Marques, criámos uma solução que permitiu à SIC entrar em 2011 com a sua oferta estruturada, com os seus programas de entretenimento escolhidos, com tempo para os preparar. Esse é o terceiro momento e estava a dar-me muito gozo. Portanto, respondendo à sua pergunta anterior, há um ano eu estaria infeliz na SIC dadas as circunstâncias. Agora, não.
Objectivamente, sente que falhou na SIC?
Não. Refuto completamente essa tese.
Mas quando chegou em 2008 a Carnaxide, qual Linda de Suza, vinha com a mala cheia de sonhos e de projectos de liderança. Três anos depois sai e a SIC continua em último, atrás da TVI e da RTP1. Por isso, pergunto-he de novo: falhou?
Só uma nota de rigor: a SIC, neste momento, está de novo em segundo lugar. Mas a minha resposta é a mesma: não. Quem quiser fazer outras leituras, que as faça. Eu sei o contexto excepcionalmente difícil que encontrei.
Mas não há como negar que em Março de 2011 sai da SIC com muito menos poder do que tinha quando lá entrou, em Janeiro de 2008...
Sim, é verdade. Saio com menos poder. Mas acho que essa decisão é legítima por quem a tem de tomar. O dr. Balsemão e o Luís Marques entenderam que a estrutura mais adequada era esta e, reconheçamos, fui sempre parte da solução, ninguém fez nada nas minhas costas.
Mas foi sentindo, ao longo do tempo, que estavam a metê-lo num colete-de-forças, que estavam a limitar-lhe a acção?
Não, não, isso não. A estrutura que a SIC tinha que já não é a que tem agora, visto que se alterou com a minha saída, era muito idêntica à que eu tinha na RTP. A Gabriela Sobral e a Júlia Pinheiro chegaram naquela terceira fase que eu já classifiquei como a fase em que a SIC criou condições para inverter a situação. Não chegaram no momento mais difícil. Eu estive lá no momento mais difícil. Eu e outras pessoas. Elas quando chegaram já tinham a casa arrumada.
Sentiu-se sozinho em algum momento?
Não, nunca me senti sozinho.
Não se arrependeu de ter saído da RTP para a SIC?
Não, fui muito feliz na programação da RTP, por isso custou-me sair. Mas não me arrependi. O meu objectivo de mexer na SIC e mudar a SIC. Esse era, na altura, o maior desafio do mercado.
Conseguiu mexer a SIC e mudar a SIC?
Deixei uma marca na ficção e no entretenimento, mas não tapo o sol com a peneira. Não mudei na linha que eu esperava, com toda a franqueza. Mas com a mesma franqueza digo que não tive as condições que, legitimamente, esperava ter. Por razões de conjuntura.
Também conjuntura interna?
Também conjuntura interna. Mas tenho um dever de reserva em relação à SIC. Tenho um profundo respeito pelo dr. Balsemão e pelo Pedro Norton e uma relação profissional e de amizade com o Luís Marques, o que me faz não querer entrar por esse caminho.
Quando escrever a sua biografia e dedicar um capítulo a Luís Marques, vai querer apagar a vossa coabitação na SIC? Ou pelo menos vai querer valorizar mais a vossa coabitação na RTP?
(pausa) De um ponto de vista pessoal e profissional, foi igualmente gratificante trabalhar com o Luís Marques na RTP e na SIC. Eu posso ter muitos defeitos, mas não sou hipócrita. Quando me despedi da RTP, agradeci à minha equipa e a dois elementos da administração, que foram Luís Marques e Ponce Leão. Quando agora saí da SIC, agradeci à minha equipa e ao Luís Marques, director-geral da SIC. Agradeci porque era isso que sentia. Eu e o Luís trabalhámos nove anos juntos. E acho que vamos voltar a trabalhar juntos (risos).
Quando a Júlia Pinheiro foi contratada pela SIC, houve logo quem comentasse "agora é que o Nuno Santos vai ser queimado em lume brando. Com a Júlia Pinheiro de um lado e a Gabriela Sobral do outro, volta a dupla-maravilha que tão bons resultados deu na TVI"...
(risos) Quem teve bons resultados na TVI foi o José Eduardo Moniz. Mas não, nunca senti isso. Sempre tive uma grande descontracção em relação a esse assunto. A Júlia foi muito bem-vinda na SIC. Ela não quer ser directora de programas. Aparentemente, até teve essa oportunidade na TVI. Mas ela não quer, não tem vocação, nem tem competência, ou competências, para ser rigoroso, para responsável da programação.
Não tem competência?
Não tem conhecimento da gestão orçamental, da gestão de alinhamentos, da negociação de direitos, da programação estrangeira......
Em 2002 quando chegou à RTP vindo da Informação, o Nuno também não tinha. Tem de se começar por algum lado...
Bom, não tinha competência, mas tinha vontade. A Júlia já disse isso. Ela não tem vontade de ser directora. Ela quer fazer, e bem, aquilo que sabe fazer de melhor. Portanto, até se pode dizer apetência em vez de competência, acho que até é mais correcto.
Portanto, ao longo dos últimos três meses, nunca sentiu que a tesoura da Noite da Má Língua, que lhe entregou na manhã em que ela regressou à SIC, lhe poderia ser espetada nas costas...
(sorriso e resposta pronta) Não, isso de todo. A nossa relação foi de uma lealdade e de uma amizade verdadeiras. A Júlia foi das pessoas que mais força fizeram para que eu ficasse na SIC.
NTV

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