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"Máquina" para fazer Ídolos

Um papel amarrotado entre as mãos. Diana agarra a letra da música que vai cantar até ao último segundo. Não precisa de a ler, a letra está mais do que decorada, mas ela sente-se melhor se tiver aquela folha consigo. O técnico de som à sua volta a confirmar a segurança do pequeno auscultador que tem no ouvido, a maquilhadora a enchê-la de pó antibrilho, um último retoque nos cabelos, um puxão no vestido, o assistente de realização segura-lhe o braço, ainda não, ainda não, e Diana de olhos fechados, agarrando o papel, a tentar concentrar-se no meio da confusão, enquanto ao longe os apresentadores dizem graçolas para a audiência. Agora!, gritam-lhe, vai!, e ela larga o papel, "ne me quite pas" no meio do chão, e corre para o seu lugar no palco. Agora.
Filipe Pinto, 21 anos, e Diana Piedade, 24, são os dois finalistas da terceira edição dos Ídolos, na SIC, que amanhã elege o vencedor. Foram escolhidos no casting nacional entre quase 20 mil candidatos, resistiram entre os 142 que passaram para a fase de palco, ultrapassaram todas as eliminações e, em três meses de emissão, tornaram-se celebridades - pedem-lhes autógrafos no meio da rua, aparecem na capa de revistas, fogem dos fotógrafos. Lidam com a fama ao mesmo tempo que aprendem a colocar a voz e a segurar o microfone.
É na Amadora, num edifício degradado onde já houve tanques de abastecimento de água e hoje funcionam a Associação de Apoio ao Domicílio e a Orquestra de Música Ligeira da Amadora, que acontecem os primeiros ensaios para cada gala. Às quintas-feiras, enquanto no rés-do-chão a cabeleireira Teresa faz permanentes a preços sociais e, no ginásio do primeiro andar, se ouve o acordeão que acompanha os passos corridos do rancho folclórico da Universidade Sénior, na sala de ensaios há bateria e guitarradas à maneira. São os Bandídolos, a bem-disposta banda liderada por Nélson Canoa, que é também o director musical do programa.
É ele que adapta as versões a serem usadas, que faz os arranjos, que orienta os concorrentes nestes primeiros ensaios. "Eles até podem conhecer as músicas mas nós fazemos tantas mudanças que praticamente têm de a aprender de novo", explica. Neste processo, é fundamental o papel do vocal coach Paulo Ramos, função que, em alguns ensaios, pode ser assumida por Patrícia Antunes, a cantora que é a voz feminina do coro. "Houve uma grande evolução desde as primeiras galas", sublinha Canoa. "Eles agora já sabem o que querem, estão mais seguros." Os ensaios decorrem em tom descontraído. "Os músicos conhecem-se há muito e criou-se uma grande cumplicidade nestes meses com os concorrentes", conta. Há piadas e gargalhadas. Mas no momento de tocar a concentração é total. É preciso repetir, uma e outra vez. Emendar e repetir. Até já todos estarem fartos das músicas.
Se não estão a cantar, têm os telemóveis na mão, isso é certo. Diana embrulha-se no casaco, junto do aquecedor. Filipe vai lá fora com os auscultadores nos ouvidos. No intervalo, ele agarra-se à guitarra e ela arma-se em baterista. É constante o entra e sai de curiosos. Avós e netos, mães e filhos. Vêm só, pedir autógrafos, tirar fotografias. "É uma loucura", reconhece Hugo Mendes, um dos elementos da produção que mais tempo passam com os concorrentes.
Hugo, de 23 anos, e Madalena Carmo, de 27, são os chamados babysitters, o que significa que estão com eles desde o início do concurso - desde o início mesmo, já lá estavam nos castings, a meter conversa com todos - e acompanham-nos, de quarta a domingo, 24 horas por dia, incluindo à noite, quando todos dormem num hotel do Estoril. "É um emprego a tempo inteiro", conta ele. "Ao princípio eram muitos e era uma confusão enorme, chegávamos a um restaurante e ocupávamos aquilo, sempre aos gritos, tínhamos de os contar para ter a certeza que estavam todos", ri-se Hugo. Depois, os lugares foram ficando vazios na carrinha dos Ídolos. Mas as rotinas mantêm-se. Os babysitters asseguram que os concorrentes cumprem os seus compromissos, que chegam a tempo e horas, que se alimentam e que não se perdem em Lisboa. No início ainda faziam pequenos passeios, iam ao cinema. "Agora, tornou-se impossível. Onde quer que vamos as pessoas não os largam. Os centros comerciais são o nosso maior pesadelo. Preferimos ficar no hotel." Juntam--se nos quartos uns dos outros, vêem filmes, conversam muito. "Acabámos por ficar amigos, até mesmo nas folgas falamos ao telefone", confessa Hugo. Para os concorrentes, Hugo e Madalena são o "pai" e a "mãe". E este tratamento diz tudo.
Cada gala começa a ser preparada com duas semanas de antecedência. Quando vão de folga, segunda e terça-feira, os concorrentes deixam as músicas escolhidas e Canoa a trabalhar nos arranjos, a equipa de conteúdos já fez as reportagens, o alinhamento está a ser definido. À quarta, os apresentadores João Manzarra e Cláudia Vieira começam a ensaiar os textos e a experimentar as roupas, a banda já anda a tocar, os concorrente juntam-se à máquina. À quinta, ensaiam. À sexta, estão por sua conta.
Sábado à tarde. Os primeiros ensaios no palco. Sem roupas, sem maquilhagem, sem luzes. O estúdio está frio e cinzento, sem o brilho que vemos no ecrã. É o momento de afinar detalhes da interpretação e de decidir os movimentos em palco. O coreógrafo Paulo Jesus, 42 anos, fica de lado, atento, e só intervém quando é mesmo necessário. "Nas primeiras galas tinha muito mais trabalho", recorda. "Fizemos uns workshops para os ensinar a ter consciência do corpo e a movimentar-se em televisão." O bailarino recomendou-lhes exercícios básicos, como cantar deitados, sentados ou a subir escadas. "Eles evoluíram muito, nota-se que as posturas mudaram", reconhece, orgulhoso. "O Filipe não parece o mesmo, já não faz aquela dança da galinha."
Quem também não perde pitada é Ana Torres, a produtora executiva do programa. Incita-os nos intervalos. "Tens de ter mais garra. Mexe-te à vontade." Critica-os e dá- -lhes dicas preciosas. "Nós não impomos nada, todo o input deles é considerado", garante esta mulher pequena e cheia de energia. "São eles que estão em frente do júri e nunca poderão desculpar-se dizendo que os obrigámos a cantar uma música ou que não gostam do penteado. Eles têm de se sentir confortáveis no palco. Mas o meu papel é assegurar que temos um programa de qualidade. Tenho de ter músicas diversificadas e concorrentes bonitos. Quanto mais eles brilharem, melhor será o espectáculo."
Ana Torres não tem que se queixar dos concorrentes desta edição. "São dedicados, ensaiam sozinhos. De uma maneira geral, têm mais cultura musical do que nas edições anteriores. E estão preocupados com os estudos, querem manter uma certa normalidade na sua vida."
Domingo é dia de gala. A equipa técnica chega aos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, logo de manhã. A banda e os concorrentes vêm pouco depois. Ainda se sente o cheiro do almoço na cantina quando na sala de maquilhagem começa a agitação. "Isto é uma espécie de sala de estar. Nos dias de gala é aqui que passam a maior parte do tempo", explica Inês Franco, coordenadora da equipa de maquilhagem e penteados. Não são apenas os concorrentes que passam por ali, mas também os músicos, os apresentadores e os jurados. Todos precisam de pelo menos uma base no rosto. "Quando eram muitos, isto aqui era um corrupio, mas, por outro lado, era mais fácil. Definia-se um look para cada um e durante o directo havia menos stress." Nas últimas galas, há menos concorrentes, mas cada um tem diferentes looks, o que acaba por ser mais difícil. "É uma correria."
Do mesmo mal se queixa Xana Simões, a mulher que gere o guarda--roupa. Filas de cabides, prateleiras cheias de chapéus, sapatos, colares, plumas, folhos, saias e casacos de todas as cores e feitios. Tem acordos com algumas lojas, visita a Feira da Ladra e anda sempre de olhos bem atentos a todas as montras: em qualquer lugar pode encontrar o adereço que fará a diferença. Alguns concorrentes são mais interventivos, trazem roupa e ideias de casa. Outros, como Filipe, tiveram de ser convencidos de que não poderiam ter sempre o mesmo visual.
Para onde quer que se olhe, há garrafas de água espalhadas pelo estúdio. Água suficiente para matar a sede às cem pessoas envolvidas no programa em directo. A partir das 15.00, o ensaio é "com tudo e com todos", como está escrito na ordem de serviço colada na porta do estúdio. Amigos e colaboradores são chamados a brincar ao "faz-de-conta": uns sentam-se no lugar dos jurados, outros simulam as entrevistas com o público. Era para ser "à séria", mas acaba por demorar muito mais tempo e os concorrentes mal têm tempo para ir jantar - com um tabuleiro nos camarins, longe das câmaras e do burburinho. Estão, como se diz por ali, no seu "santuário". "Agora não, eles estão a concentrar-se."
Passa pouco das oito da noite e já a multidão se acumula lá fora. Todas as semanas é a loucura nos estúdios de Paço de Arcos. As bancadas levam 450 pessoas e há sempre quem fique à porta. Além das claques dos concorrentes, há os jornalistas que ocupam uma fila inteira, há os fãs anónimos e os mais ou menos famosos que telefonam a pedir bilhetes para os filhos e sobrinhos. Há os que pedem para ir aos bastidores dar um beijinho. A histeria dos fãs revela-se nos cartazes que empunham, nos gritos estridentes, no facto de às duas da manhã continuarem à porta do estúdio, ao frio e à chuva, à espera de ver sair o seu ídolo. "Parece a beatlemania", goza Ana Torres.
"Faltam dois minutos", grita o assistente de realização nos bastidores. "Faltam dois minutos", avisa Betão, o animador, para a plateia. Cabelos, microfones, luzes, câmaras, posições. Verificar tudo em dois minutos. João Manzarra e Cláudia Vieira já estão nos seus lugares com os olhos postos no teleponto. O realizador André Soares e a directora de conteúdos Cecília Aguiar instalam-se ao comando na régie. No set, Ana Torres esbraceja. Nos bastidores, os concorrentes apressam-se. Xana deixa o seu guarda-fatos gigante, Inês traz o pó-de-arroz, Paulo Reis encosta-se num canto, Hugo rói as unhas, estão todos atrás do cenário, todos ali para ver os seus meninos brilhar. Sentado num banco, Filipe bebe água. Diana agarra a folha de papel com a letra da música, o técnico de som verifica o auricular, a maquilhadora ajeita-lhe a peruca, o assistente de realização segura-lhe o braço. Ainda não, ainda não. Agora, vai.
fonte: site DN