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Perdidos e Achados no outro lado da Quinta do Mocho

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Sábado no Jornal da Noite

Chegar a Sacavém, concelho de Loures, chegar ao improvisado bairro da Quinta do Mocho e achar que nunca se saiu da África profunda e pobre.

 

Era isso que acontecia a quem "aterrava", a seguir a 1974, nas torres abandonadas pela construtora Jota Pimenta que, entretanto, tinha entrado em processo de falência. Com o passar dos anos, o que era apenas uma estrutura de betão vai-se transformando num inesperado conjunto de habitações precárias.

Um bairro de imigrantes que inventam paredes, janelas e chão. Tentam viver em andares onde a eletricidade é desviada, a água uma preocupação constante e os esgotos uma necessidade adiada. Chegam a ser mais de 5 mil moradores. Números não oficiais.

Quase 100% nascidos nos países africanos de língua oficial portuguesa. Fogem da guerra e da miséria. Com baixas qualificações escolares, encontram na construção civil uma bolsa de emprego garantido. Na década de 90, Portugal está sedento de mão-de-obra barata para colocar de pé projetos como a Expo'98. Nesse ano, entraram em Lisboa, para visitar a exposição mundial, mais de 10 milhões de pessoas.

Menos de 4 quilómetros ao lado, homens, mulheres e crianças viviam num dos maiores bairros de barracas da área metropolitana de Lisboa. O realojamento começa em Abril de 1999. Termina mais de dois anos depois. A nova Quinta do Mocho, construída ao abrigo do Plano Especial de Realojamento, custou perto de 35 milhões de euros. Só teve direito a casa, quem se registou até 1997. Alguns ficaram na rua. Os prédios antigos acabaram por ser demolidos. O novo Mocho, que as autoridades bem tentaram que se chamasse "Terraços da Ponte", é hoje um viveiro de músicos. Em cada esquina há um rapper e um DJ.

Em cada rosto, igualdade ou o desejo de a encontrar depois de anos a somar histórias de moradores detidos, tiroteios, apreensões de droga e armas ilegais e gangues, como o que ficou conhecido pelo gangue das Seis e Meia. Ainda há 3 meses, a PSP deteve no Mocho 7 pessoas por posse de droga e armas ilegais. Uma operação contestada pelos moradores que acusam a polícia de, com estas ações, prejudicar a mudança que dizem estar a acontecer no bairro. Uma mudança para melhor, através da arte na rua.

A Quinta do Mocho tem agora o estatuto de Galeria de Arte Pública. O festival de arte urbana “O Bairro i o Mundo”, em Outubro de 2014, deu o pontapé de saída e começou a levantar a poeira do estigma.

Em cerca de um ano, mais de 45 artistas pintaram 50 paredes exteriores do bairro. Uma celebração da liberdade que só a imaginação pode garantir.

Jornalista: Catarina Neves

Repórter de Imagem: Odacir Júnior

Edição de Imagem: João Nunes

Produção: Cláudia Araújo, Madalena Durão

Coordenação: Pedro Mourinho